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Coluna - A Vingança do Barnabé
Publicada dia 01 de Agosto de 2003

A Vingança do Barnabé

- O que é isso, amigo, fazendo um serviço desse no túmulo do Presidente?

- Oh, desculpe, eu nem reparei direito...

- Mas logo na sepultura do Presidente?

- Desculpe, desculpe...

- Se o ronda tivesse passado por aqui hoje, o senhor ia se dar muito mal mesmo...

- Não se aborreça, amigo, é essa danada da cistite...

- Cis o quê?

- Cistite... inflamação na bexiga. Eu sofro de cistite.

- Tudo bem, tudo bem. Da próxima vez tenha mais cuidado. Molhou tudo...

- Obrigado companheiro. Velho é assim mesmo: tem o mijo frouxo. Quando a vontade aperta, agente não escolhe lugar...

Seu Cândido afastou-se fechando o zíper da calça. O alívio não fora só o da bexiga esvaziada. A satisfaçâo, o bem estar, o desafogo do seu coraçâo estavam explícitos no arregalho dos seus dentes castigados por antigas nicotinas. Parou por um instante, acendeu um cigarro, exagerou na baforada, apressou o passo até alcançar a principal saida do cemitério de Brasília. Na descida da calçada, um chute numa lata vazia de cerveja sacramentou o alívio, o bem-estar que lhe ia n\'alma. Afinal, depois de viagem tão sacrificada, um desfecho mais que exitoso. - Tô vingado, filho da puta!

De regresso ao Recife, na poltrona do avião, Seu Cândido, promessa cumprida, nem prestou atenção aos préstimos da aeromoça. - Obrigado, moça, não careço nada. Tá tudo muito bom. Muito bom mesmo!

A espiada através da janela do avião deu a Seu Cândido a noção exata da grandeza de Brasília. À visão da arquitetura peculiar da capital, Seu Cândido não se conteve: - Tanta coisa linda, tanto dinheiro gasto, abrigando tanto ladrão, tanto filho da puta- falou baixinho.

Em virtude da curtíssima temporada no Planalto, só lhe fora possível observar a cidade na hora do regresso, justamente da janela do avião.

Seu Cândido, entretanto, não lamentou. Todo brasileiro conhecia o "jeitão" de Brasília. A arquitetura da cidade de Juscelino era mais conhecida do que feijão. Afinal, Seu Cândido não estivera ali para passear, e sim para cumprir uma "nobilitante" missão...

A permanência em Brasília fora, efetivamente, muito curta. Minutos após o desembarque, já estava a pedir informações sobre o cemitério de Brasília. Se longe, como proceder para chegar lá.

Na verdade o mais difícil fora chegar até Brasília. Juntar cada centavo para as passagens. Os gastos com a estadia jamais o preocuparam. Pobre se arranja de qualquer jeito. O importante mesmo era chegar precisamente ao cemitério de Brasília. O resto seriam detalhes bestas...

Essas coisas jamais constituíram problemas para Seu Cândido. Contínuo de repartição pública por mais de quarenta anos, sem nunca ter obtido uma promoção. Mais da metade desse longo período, viveu à espera de "reclassificações", justas, que lhe melhorassem o contra cheque.

Durante tanto tempo assistiu, entre revoltado e impotente, aos desmandos ocorridos na sua repartição. A orgia na ocupação de cargos por gente desqualificada, mas "qualificada" por consangüinidades e afinidades com políticos em evidência.

Afilhados que vinham e iam sem deixar vestígios de suas passagens, magicamente, graças às manobras dos padrinhos "surfistas", da onda política.

Foi duro suportar tantos absurdos. Assistir às eternas sucessões de superintendentes, diretores, chefes e subchefes àquelas lengalengas de planos, projetos mirabolantes que jamais saíram do papel; à posse dos filhos dos filhos dos filhos do pri_ meiro-chefe; àquele enfadonho desfile de nulidades, de analfabetos, todos respaldados na "performance" de senadores safados. Foi duro, muito duro, assistir, impotente, às medidas presidenciais visando sempre à desmoralização do serviço público, concursado, ne_ gando-lhe ascensão funcional e melhoria salarial em benefício do almofadinha de belo sobrenome - de preferência italiano -, ou da tesoureira rabuda, amásia do deputado federal.

Seu Cândido, inegavelmente, sofria muito com tudo aquilo. Mas responsabilizar a quem?

Responsabilizar, evidentemente, o excelentíssimo senhor presidente da República, daí a sua promessa:

- Quando esse presidente corrupto morrer, vou a Brasília, custe o que custar, haja o que houver, somente para dar uma mijada na cara do safado.

Missão cumprida.


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